Durante milhares de anos, um paraíso permaneceu esquecido entre o continente europeu em transformação e as terras americanas ainda ignoradas pelo homem branco, a um só tempo cheio de temores e atraído pelo desconhecido.
Esse lugar idílico, formado por rochas nascidas das profundezas do oceano, ganhara vida após o magna das erupções vulcânicas esfriar e se transformar em solo fértil e acolhedor para animais e plantas, a partir de sementes trazidas pelos ventos e correntes.
Substâncias vivas elementares predominaram ali por um tempo que poucos ousam precisar, em termos de anos, séculos e milênios.
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Primeiro mapa dos Açores, de 1584, feito por Abraham Orteluis e Luís Teixeira – Foto: Paulo Clóvis Schmitz/Especial ND/DivulgaçãoEnquanto as ilhas que viriam a compor os Açores vicejavam, sem a participação e à revelia do elemento humano, o mundo tido como civilizado se submetia a interesses de diferentes povos, em ciclos que envolviam conquistas, guerras, avanços e conflitos de toda ordem.
As ilhas açorianas não tinham, até as primeiras décadas do século 15, testemunhado o desembarque de algum exemplar do homo sapiens. Há lendas que questionam essa afirmação, mas, sendo lendas, permaneceram no terreno da especulação e do mistério.
Não que o mito mereça desprezo, porque é caro ao imaginário humano. Pululavam histórias dando conta da existência da Atlântida (o lendário continente citado por Platão), das Sete Cidades (também chamadas de Antillia, ou Antilia, situadas no Atlântico, a ocidente da Europa), das terras de São Brandão (referência ao monge e navegador irlandês Brandão de Ardfert e Clonfert, que teria descoberto ilhas atlânticas referidas em vários mapas medievais), das Ilhas Afortunadas (segundo as mitologias grega e céltica, uma região abençoada onde as almas favorecidas eram recebidas pelos deuses após a morte) e da ilha do Brasil (de dimensões variadas, de acordo com mapas da época, mas situada no Atlântico norte).
Na segunda metade do século 14, as navegações entre o Mediterrâneo e o Atlântico atraíram artífices e comerciantes genoveses, florentinos e venezianos, e foi quando as embarcações ganharam mais qualidade e resistência.
A par disso, tornou-se obsessão para os europeus levar o cristianismo para outros lugares – pretexto para investimentos na expansão das aventuras marítimas.
Portugal foi um ator central nesse cenário, porque desenvolveu uma indústria naval que tornou o país potência mundial. O empenho do infante Dom Henrique, grande mecenas das navegações, colocou a nação portuguesa na vanguarda do povoamento das terras atlânticas.
Paraíso na terra, apesar do vulcanismo
Situado a 1.300 quilômetros da Europa e a 2.000 quilômetros da América do Norte, o arquipélago dos Açores chegou a ser visto como o “resto de um continente que o mar engoliu”.
No entanto, as evidências mostram que o mar, ao contrário, expeliu as nove ilhas, num raio de 600 quilômetros entre seus extremos, Santa Maria e Corvo. Nesse ponto se entrecruzam as placas tectônicas Euro-asiática, Africana e Americana, que continuam em movimento e que contribuíram, em grande monta, para a diáspora que colocou o homem açoriano em regiões e países de todos os continentes.
Andar pelas ilhas, hoje em dia, permite testemunhar o impacto dos tremores de terra e da atividade vulcânica recente. No Pico, por exemplo, há regiões tomadas por construções erguidas com pedras do vulcão que entrou em erupção, pela última vez, no ano de 1718. No Faial, há casas abandonadas porque um terremoto provocou rachaduras na estrutura das edificações.
Na mesma ilha, o vulcão dos Capelinhos ainda traz as marcas da erupção de 1957, cujas lavas de fogo puderam ser vistas de outras partes do arquipélago. Há poucas semanas, a ilha de São Jorge entrou no noticiário porque foi palco de tremores que assustaram as autoridades e a população.
Essas intempéries, porém, não impediram que os Açores se tornassem um dos lugares mais belos do planeta. O clima temperado do mar deixa as temperaturas entre 14 e 25 graus, com raríssimas oscilações fora dessa faixa. A ocupação se deu em terras baixas, próximas à orla, onde surgiram vilas, cidades e plantações. As terras altas, tomadas por pastagens e mato, são mais inóspitas, castigadas pelos ventos e pela umidade das nuvens.
A descoberta da ilhas remotas e sua ocupação
A versão mais aceita entre os estudiosos é de que o descobridor das ilhas – que “são as mais belas do mundo”, segundo Daniel de Sá, no livro “Açores”, de 2003 – foi Diogo de Silves, em 1427. A origem do nome é geralmente atribuída a um pássaro chamado açor, que teria sido confundido com os milhafres, aves ainda hoje comuns no arquipélago.
Há outras teorias, como a de que Gonçalo Velho Cabral, organizador do povoamento das ilhas de Santa Maria e São Miguel, a mando do infante Dom Henrique, batizou o lugar em honra a Nossa Senhora dos Açores, que ornava uma velha igreja gótica de Aldeia Rica, na região continental da Beira Alta.
Pouco depois do descobrimento, o infante determinou que se soltassem animais domésticos para testar a habitabilidade das ilhas. Caso sobrevivessem e se multiplicassem, haveria a certeza de que o arquipélago poderia receber povoadores e que estes teriam carne, leite e transporte para ali se fixarem e começaram uma nova vida.
Moradores de várias regiões de Portugal, incluindo descendentes de mouros judeus, foram os habitantes pioneiros. Com o tempo, o que soava como um castigo, um degredo involuntário, passou a ser visto com uma oportunidade, a ponto de gente de Flandres, na Bélgica, ter ajudado a povoar as ilhas.
Com isso, o que era matéria-prima para lendas e histórias fantasiosas, ainda que baseadas no depoimento oral de aventureiros de distintas latitudes, passou a figurar no cotidiano dos europeus como fato incontestável. E as cartas de marear, que foram uma evolução dos portulanos (cartas náuticas do final da Idade Média que descreviam portos e costas marítimas em papiro), deram lugar a mapas mais fiéis à geografia das terras e dos mares conhecidos.
A cronologia das navegações portuguesas remete ao tempo do rei Dom Diniz, no século 14, mas foi somente com uma carta-régia de 1439, passada por Pedro de Portugal, que surge a referência a um conjunto de sete ilhas conhecidas.
Às ilhas de Santa Maria, São Miguel, Terceira, Faial, Pico, São Jorge e Graciosa foram agregadas, alterando a configuração inicial, Flores e Corvo, do grupo ocidental, em 1452, descobertas pelos navegadores Pedro Vásquez de la Frontera e Diogo de Teive. Esses aventureiros localizaram as duas ilhas ao voltarem de uma viagem em que procuraram outras terras míticas, ou, segundo alguns historiadores, após concluírem uma longa maratona de pesca no litoral do atual Canadá.
A origem dos imigrantes para o Brasil
Geologicamente, a primeira ilha a emergir do mar foi Santa Maria, há 8,12 milhões de anos. Pertencente ao grupo oriental, mais próximo da Europa e da África, ela apresenta vestígios mais remotos de vulcanismo. Por isso, também, chama a atenção pelos fósseis marinhos encontrados em suas formações de origem sedimentar.
De acordo com o livro “Açores”, de Daniel de Sá, há ali uma colina de pedra negra que é anterior ao período em que os primeiros hominídeos começaram a andar de pé. Em algumas ilhas do arquipélago formaram-se as “caldeiras”, ou seja, vulcões cujas crateras vieram abaixo, abrindo flancos para o cultivo de cereais e a criação de belos vilarejos que se estendem pelas encostas.
As ilhas do grupo central (Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial), mais recentes que Santa Maria e, portanto, mais suscetíveis aos efeitos do vulcanismo, foram a origem da maioria dos imigrantes que vieram, em meados do século 18, para o Sul do Brasil. A primeira leva chegou ao Desterro, que denominava a atual Florianópolis, no dia 6 de janeiro de 1748, mas o desembarque se deu semanas depois, após o fim dos trâmites burocráticos.
No livro “Na esquina das ilhas”, a professora e pesquisadora Lélia Pereira Nunes escreveu: “Nas plagas de Santa Catarina, os açorianos foram visionários na música, nas artes, na literatura, na política, no jornalismo, na arquitetura de nossas vilas e igrejas, nos entrelaçar dos fios da grande almofada de renda de nossa cultura insular”.