É difícil conhecer uma pessoa que não tenha um apelido, não é? E em Joinville, no Norte de Santa Catarina, esse costume se estende também ao próprio município, que completa 171 anos neste dia 9 de março. Cidade das flores, das bicicletas, dos príncipes… O que não falta são apelidos. Mas você sabe a origem de cada um deles?
Bicicletas, dança, príncipes, flores e até Manchester Catarinense: não faltam apelidos para Joinville – Foto: Arte/NDNesta data em que o município de vários títulos completa mais um ano, o ND+ conversou com o historiador e coordenador do Arquivo Histórico de Joinville, Dilney Cunha, que explicou de onde vem cada um deles. Alguns têm muita relação com o que se via nas ruas da cidade, já outros, parecem um pouco menos próximos da realidade. Vamos conferir?
Cidade das Flores – apelido que veio de um presidente
Antes mesmo de Joinville sediar a tradicional Festa das Flores – ou de o atual prefeito ficar conhecido por ter o embelezamento da cidade como uma de suas prioridades durante a campanha eleitoral – Joinville já era conhecida como Cidade das Flores.
SeguirO título, na verdade, surgiu de repente: era 1906 quando o então presidente Afonso Pena veio até a cidade para inaugurar o ramal ferroviário, onde hoje fica a estação. “Ele chegou a dormir, mas saiu logo cedo no dia seguinte, teve pouco tempo para conhecer a cidade”, conta Dilney.
Dessa forma, as poucas horas em Joinville serviram para que o presidente conhecesse apenas uma parte da cidade, já preparada para a visita que estava programada há muito tempo. “Levaram ele para um passeio pelas ruas centrais, com as ruas enfeitadas, os jardins cuidados e ele saiu com uma ótima impressão”, destaca o historiador.
E essa impressão causada pela visita a apenas uma parte da cidade fez com que Afonso Pena comentasse que Joinville estava enfeitada e parecendo um jardim, ou melhor, “uma cidade jardim”. Foi o bastante para que, pouco tempo depois, um jornal no Rio de Janeiro, então capital federal, usasse a expressão “cidade jardim do Brasil” para se referir a Joinville.
Festa das Flores em 1940 – Foto: AHJ/DivulgaçãoSegundo Dilney, a ideia de Cidade das Flores também ganhou força mais tarde, com a realização da primeira Exposição de Flores e Arte, na década de 1930, organizada pela Ajao (Agremiação Joinvillense de Amadores de Orquídeas). A cereja do bolo, por fim, veio com a Festa das Flores, que ganhou ainda mais proporção e reforçou a imagem de uma cidade florida.
Cidade das Bicicletas – título visível nas ruas
Enquanto a fama de Cidade das Flores parece ter surgido quase sem querer, o apelido de Cidade das Bicicletas tem uma história mais crível ou, pelo menos, mais perceptível pelas ruas. É que na década de 1950, a cidade era marcada por uma estatística impressionante: para uma população de cerca de 30 mil habitantes, havia 8 mil bicicletas – e só 300 carros.
“A cidade era dominada por bicicletas. Elas se tornaram baratas depois da Segunda Guerra Mundial, com a produção nacional, e como a cidade é plana, sem muitos morros, é fácil andar sem se cansar muito. Era o meio de ir e voltar do trabalho de forma barata e fácil”, conta Dilney. As imagens de trabalhadores de bicicleta saindo em massa das fábricas fazem parte da memória de muitas pessoas.
Trabalhadores na saída da Fundição Tupy, na década de 1980 – Foto: Everson Bressan/AHJ/DivulgaçãoEmbora tenha se popularizado nas décadas de 1940 e 1950, a bicicleta chegou à cidade ainda antes, por volta de 1895. E naquela época, era cara a vida do ciclista: as bicicletas eram importadas e ainda havia imposto sobre elas, o que tornava-as um objeto caro e usado por poucas pessoas. E uma curiosidade: na época, as bicicletas tinham até placa.
Cidade dos Príncipes – mas eles nunca pisaram aqui
O título de Cidade dos Príncipes é tão famoso que está até no hino de Joinville. Ele se deve à ligação da cidade com François Ferdinand, o príncipe francês que se casou com a princesa Dona Francisca e que, como dote pelo casamento, ganhou uma parte do terreno em que hoje fica Joinville – que é chamada assim, aliás, por causa da região francesa de mesmo nome.
Mas se engana quem pensa que o príncipe e a princesa viveram na cidade: na verdade, eles nunca nem puseram os pés em Joinville. Donos das terras, eles cederam uma parte delas para a criação da Sociedade Colonizadora Hamburgo, responsável por trazer os imigrantes germânicos para a colônia, com a intenção de que fosse ocupada e valorizasse o restante das terras.
Princesa Dona Francisca dá até nome à rua e à serra, mas nunca esteve em Joinville – Foto: Reprodução/NDOu seja, o interesse era mesmo econômico. Aliás, vale dizer que nem mesmo o casarão onde hoje fica o Museu Nacional de Imigração e Colonização foi construído para receber o casal. Lá, apenas esteve o administrador dos negócios do príncipe e da princesa. “O casal nunca esteve aqui e não há registro que demonstre essa intenção”, destaca Dilney.
Os príncipes podem até estar no hino, mas em Joinville mesmo não estiveram. “Essa ligação ficou no imaginário popular porque também foi construído o casarão e plantadas as palmeiras, então deu um aspecto nobre à cidade. Essa presença estava muito forte no imaginário”, salienta o historiador.
Manchester Catarinense – o auge da industrialização
Um título que talvez não seja mais tão usual atualmente, mas pelo qual Joinville ficou conhecida, é o de Manchester Catarinense. Dilney explica que o termo se refere à cidade inglesa que foi o berço da industrialização na Europa durante a Revolução Industrial, processo pelo qual a catarinense Joinville vinha passando na década de 1920.
Trabalhadores na Fundição Grossenbacher & Trinks, na década de 1900 – Foto: AHJ/DivulgaçãoApós a Primeira Guerra Mundial, a cidade ainda contava com a economia da erva mate e da madeira, mas a indústria começava a ganhar força, principalmente a têxtil e algumas fundições. “Isso vai se intensificar depois da Segunda Guerra, com o grande impulso, quando definitivamente a imagem da Manchester Catarinense vai se incorporar”, ressalta Dilney.
Assim, as primeiras referências à cidade como a Manchester no Brasil são da década de 1920, mas não vieram necessariamente de pessoas daqui, mas sim de viajantes e observadores de fora, que levavam suas impressões para fora, fazendo com que o termo aparecesse em jornais.
Cidade da Dança – do Bolshoi, do festival e de muitos bailarinos
Por fim, outro apelido pelo qual Joinville é conhecida é o de Cidade da Dança. E este também vem de bastante tempo, desde a década de 1980, quando surgiu o Festival de Dança, que é o maior festival do gênero em número de participantes do mundo.
Joinville recebe o maior festival de dança do mundo – Foto: Nilson Bastian/DivulgaçãoNo entanto, Dilney observa que mesmo antes da criação do evento a cidade já tinha uma tradição voltada à dança. “Havia a Escola de Balé Municipal desde o início dos anos 1970 e, antes, aulas de dança com a famosa professora Liselott Trinks, ligada à Harmonia Lyra e outras sociedades amadoras”, conta.
O apelido ganhou ainda mais força com a fundação da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em 2000, tornando Joinville a sede da única filial do Teatro Bolshoi de Moscou.
Os títulos e sua importância histórica
Que Joinville é uma cidade de muitos apelidos não há dúvida. Mas, afinal, qual é a relevância deles para a história ou a imagem da cidade?
“Eu creio que cada apelido retrata a imagem que se quer criar ou que se tem da cidade, da sociedade local, para o bem ou para o mal. Tem coisas que nem sempre são vinculadas a uma realidade de fato, mas é algo imaginário, o que se espera e se quer da cidade. E também o que se vende da cidade, também entra uma questão turística”, ressalta Dilney.
E para você, qual é o apelido de Joinville que melhor retrata a cidade?