Lagoa da Conceição: uma laguna que respira vida no Leste da Ilha de Santa Catarina

Reportagem do Floripa 350 traz peculiaridades e histórias de um dos mais encantadores cartões postais de Florianópolis, a Lagoa da Conceição

Windson Prado, Especial para o ND+ Florianópolis

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Pode ser por terra, pela água ou pelo ar. Passar pela Lagoa da Conceição, no Leste de Florianópolis, é sempre uma experiência de contemplação da imensa beleza natural da Ilha da Magia. A equipe do Floripa 350 foi até lá para vivenciar essa energia e conhecer a história de uma das ‘lagoas’ mais famosas do Brasil.

Lagoa da Conceição é um convite para as práticas esportivas, gastronomia e lazer – Foto: Windson Prado/NDLagoa da Conceição é um convite para as práticas esportivas, gastronomia e lazer – Foto: Windson Prado/ND

Quem aceitou a missão foi o jornalista Luan Vosnhak. “Perder um tempo para explorar essa região é algo obrigatório. Sempre há alguém praticando esportes, seja por terra, nas dunas, na água, com o stand-up, e até pelo ar, como o parapente”, conta, lembrando que o local é rico em gastronomia e um grande polo de entretenimento.

Jornalista Luan Vosnhak com o biólogo e ecólogo Paulo Horta na Lagoa da Conceição – Foto: Reprodução NDTV RecordTVJornalista Luan Vosnhak com o biólogo e ecólogo Paulo Horta na Lagoa da Conceição – Foto: Reprodução NDTV RecordTV

Foi lá que Luan descobriu que, na verdade, a Lagoa da Conceição é uma laguna. Isso porque ela tem ligação com o mar, no Canal da Barra da Lagoa, o que deixa as águas salgadas. Lagoa é sempre de água doce, como explica o biólogo e ecólogo Paulo Horta.

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“Esses ambientes costeiros, podem ter ou não conexão com o mar. Neste caso, nós temos uma ligação que foi perenizada desde a década de 80. Esta conexão traz água salgada e uma série de condições ambientais que transformam o ambiente em um verdadeiro estuário. É por isso que nós o chamamos de laguna”, detalha Horta.

Sítios arqueológicos da Lagoa da Conceição

Passeando pelas ruas da Lagoa, o jornalista Luan Vosnhak foi parar em um sambaqui. Sim, assim como grande parte da Ilha, o local também reúne vestígios de uma antiga civilização. Quem fala sobre o sítio arqueológico é o ambientalista Alésio dos Passos.

“Desde pequeno tenho este contato com o amontoado de conchas que formam o sambaqui. Com meu pai e meu tio plantávamos a roça de mandioca neste local. Naquela época, não tinha a questão da preservação, então quando arrancávamos as raízes do aipim acabávamos tirando da terra também partes de esqueletos”, recorda o morador cresceu na Lagoa da Conceição.

Família do ambientalista Alésio dos Passos vive há gerações na Lagoa da Conceição – Foto: Reprodução NDTV RecordTVFamília do ambientalista Alésio dos Passos vive há gerações na Lagoa da Conceição – Foto: Reprodução NDTV RecordTV

Ele lembra que o solo era muito rico por conta do calcário das conchas e do cálcio dos esqueletos, o que fazia com que a roça fosse muito produtiva.

“Vi a Lagoa da Conceição crescer e se desenvolver. A conheci repleta de vida e vejo hoje parte da falência desse ambiente devido à degradação. Por isso, é importante a gente trabalhar as questões da preservação ambiental, recuperar tudo que foi perdido para garantir uma lagoa sem poluição e com uma vida pulsante no futuro”, completa o ecólogo.

A fundação da Lagoa da Conceição e a igreja

A localidade foi fundada em 1750 e recebeu o nome de Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa. Desde então passou a ser um dos núcleos coloniais mais importantes da Ilha.

Foi nesse período que os colonizadores construíram a Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição da Lagoa. O templo foi erguido sob a aprovação da corte portuguesa e por duas vezes recebeu a visita do imperador Dom Pedro 2º, que doou dois sinos e castiçais de prata para a congregação.

Criada em 20 de junho de 1750, a Igreja da Lagoa da Conceição passou por muitas reformas, mas preserva a arquitetura trazida pelos portugueses – Foto: Divulgação/NDCriada em 20 de junho de 1750, a Igreja da Lagoa da Conceição passou por muitas reformas, mas preserva a arquitetura trazida pelos portugueses – Foto: Divulgação/ND

De lá pra cá muitas foram as modificações, mas traços da arquitetura trazida pelos portugueses foram preservados. Em 1974, um decreto de tombamento histórico garantiu a preservação da capela.

O documento também acolheu as igrejas que representavam a arquitetura portuguesa na Ilha: a Igreja de São Francisco de Assis, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, ambas no Centro da cidade, a Igreja de Nossa Senhora das Necessidades, em Santo Antônio de Lisboa, e a Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão da Ilha. Em 1999, o local foi elevado à categoria de santuário.

Avenida das Rendeiras

Na principal via da Lagoa da Conceição, a avenida das Rendeiras, Luan Vosnhak conheceu dona Zulma Maria Matias. A artesã aprendeu a arte de tecer as rendas de bilro aos 5 anos. No passado, a concentração destas tecelãs era grande às margens da lagoa.

É devido a esta tradição açoriana que a avenida ganhou esse nome. Nas Rendeiras está a rota gastronômica da Lagoa da Conceição com diversos restaurantes que atraem turistas e moradores em busca da melhor refeição com frutos do mar da Ilha.

Passeio de táxi marítimo e cachoeira

Do outro lado das Rendeiras, Luan Vosnhak descobriu um lugar bastante isolado que guarda resquícios de uma Florianópolis de antigamente, a Costa da Lagoa. Para chegar lá existem duas opções: fazer uma trilha de aproximadamente duas horas, em meio a Mata Atlântica, ou pegar um barco no Terminal de Transporte Lacustre.

O usuário pode escolher entre um barco-táxi ou uma embarcação compartilhada. O serviço funciona como uma espécie de ônibus – com várias paradas durante o trajeto – e custa R$ 25, ida e volta. Para os barcos-táxi, os valores variam.

Jornalista Luan Vosnhak embarcou em um bate-papo com Maicon Albino que cresceu na Lagoa da Conceição – Foto: Reprodução NDTV RecordTVJornalista Luan Vosnhak embarcou em um bate-papo com Maicon Albino que cresceu na Lagoa da Conceição – Foto: Reprodução NDTV RecordTV

Para chegar até a Costa da Lagoa são cerca de 12 minutos de navegação. No meio desse caminho, Luan conversou com Maicon Edi Albino. Desde o primeiro dia de vida o manezinho andou de barco, e hoje, é dele que tira o sustendo da família, promovendo viagens pela lagoa.

“Além do táxi, temos duas alternativas de passeio. O de duas horas e o de três horas. No primeiro a gente faz todo o perímetro da lagoa, com parada para banho e almoço. No segundo também navegamos pela Barra da Lagoa e seguimos até o mar”, conta Albino, que brinca: “nasci navegando. No dia em que saí da maternidade já tive que usar o barco para ir pra casa”.

Após visitar a vila, Luan se aventurou em um delicioso banho de cachoeira, mais uma atração imperdível da Lagoa da Conceição. “Cercada pelos morros a cascata é ótima para se conectar com a natureza. Depois de uma caminhada e um passeio desses, dizem que a melhor maneira de recarregar as energias é tomando um banho de água gelada. Que assim seja…”, finaliza o jornalista.

A lenda do índio e da bruxa

Ainda nos dias atuais, uma antiga lenda sobre o surgimento da Lagoa da Conceição se faz muito viva e é preservada pelos manezinhos. Reza a lenda que a imensa laguna do Leste da Ilha seria fruto de um grande amor interrompido.

É a história da bruxa Conceição e do índio Peri. O conto foi detalhado pelo jornalista e guia de turismo Rodrigo Stüpp ao ND+ na reportagem ‘Amor proibido: conheça a lenda de como surgiu a Lagoa do Peri e a Lagoa da Conceição‘.

Lagoa do Peri que faz parte da lenda da Lagoa da Conceição é em formato de coração – Foto: Casan/Acervo/Divulgação/NDLagoa do Peri que faz parte da lenda da Lagoa da Conceição é em formato de coração – Foto: Casan/Acervo/Divulgação/ND

Conceição e Peri teriam se apaixonado loucamente, mas o romance era proibido, tanto pela tribo indígena quanto pelo clã de bruxas que habitavam a Ilha. Mas como diz o músico, Johnny Hooker, ‘para dois apaixonados o que importa é viver este amor’, os dois continuavam a se encontrar escondidos pelas matas.

Foi então que o pior aconteceu. As bruxas descobriram os encontros furtivos e lançaram uma maldição, transformando o índio em uma lagoa de água doce: a Lagoa do Peri, em formato de coração. Conceição ficou tão triste, chorou tanto, que suas lágrimas salgadas, se acumularam e deram origem à Lagoa da Conceição.

Confira a reportagem completa

Floripa 350

O projeto Floripa 350 é uma iniciativa do Grupo ND em comemoração ao aniversário de 350 anos de Florianópolis. Ao longo de dez meses, reportagens especiais sobre a cultura, o desenvolvimento e personalidades da cidade serão publicadas e exibidas no Jornal ND, no portal ND+ e na NDTV RecordTV.