Nos tempos de quintais e campos de várzea em Florianópolis, o Hotel Maria do Mar

Na Florianópolis de menos de 200 mil habitantes, os filhos de pescadores tiveram no Maria do Mar a oportunidade do primeiro emprego

Foto de Paulo Clóvis Schmitz e Carolina Coral

Paulo Clóvis Schmitz e Carolina Coral Florianópolis

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Quando o Maria do Mar foi inaugurado, em 21 de março de 1981, Florianópolis tinha cerca de 188 mil habitantes – população que quase dobrou duas décadas depois, após um boom demográfico sem precedentes na história de Santa Catarina.

Hotel transformou o bairro Saco Grande, hoje João Paulo – Foto: Acervo Pessoal/NDHotel transformou o bairro Saco Grande, hoje João Paulo – Foto: Acervo Pessoal/ND

Instalado junto a uma comunidade de pescadores, lavadeiras e trabalhadores braçais autônomos, o hotel gerou emprego e renda para moradores locais e ajudou, com seu nome e prestígio, a atrair obras de infraestrutura, como a pavimentação da antiga rodovia Virgílio Várzea, que passava por ali em direção ao Norte da Ilha.

A vila se chamava Saco Grande, uma referência à enseada pródiga em peixes que margeava as pequenas praias, costões e o mangue contíguo. Poucos moradores imaginavam que quatro décadas depois o local se tornaria o requintado bairro João Paulo, com prédios de alto padrão, a maioria de uso residencial.

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O barbeiro Edson José Dias, conhecido na região como Edinho, foi um dos muitos filhos de pescadores que tiveram no Maria do Mar a primeira experiência profissional. Ele trabalhou no hotel durante 18 anos e chegou a chefe da recepção, função que deixou há oito anos, em 2014.

Ele recorda que havia fartura de frutos do mar, em especial o berbigão, hoje praticamente extinto no litoral, e que os jovens de sua idade jogavam futebol nos muitos campos de várzea do bairro. O banho de mar era seguro, porque a poluição veio muito tempo depois, prejudicando o trabalho dos pescadores e pondo em risco a saúde dos moradores.

“A gente jogava bola e apanhava frutas nos quintais, uma coisa impensável nos dias de hoje”, diz Edson. Além dos empregos, o Maria do Mar deu a permissão para os pescadores usarem a área de abrangência do hotel em seus deslocamentos em trilhas e costões da região.

Ainda hoje o João Paulo abriga uma colônia de pesca com vários ranchos ativos, onde se remendam redes e se guardam barcos e apetrechos. Quem anda pela estrada geral do bairro pode não imaginar que a poucos metros da via se esconde um recanto onde há décadas homens e mulheres labutam para extrair do mar o que ele oferece sem custos no remanso da baía Norte.

Resguardada por uma enseada de águas calmas, a praia dispõe de um trapiche construído pela Prefeitura de Florianópolis e que oferece à vista um belo pôr do sol, tendo como recorte os morros do Continente.

Um bairro musical por excelência

Por talento próprio e determinação dos artistas, e com os espaços abertos pelo Maria do Mar, o bairro Saco Grande (e, depois, o sucedâneo João Paulo) se revelou o berço de várias bandas de sucesso na Ilha de Santa Catarina e fora dela.

Foi ali que surgiram os grupos Dazaranha, Tijuqueira, Primavera nos Dentes, Mangroove, Dhaoka, Maldasaria, Atajuva, John Paul e Gente da Terra – esta, criada por alguns descendentes do pioneiro João Paulo, que dá nome ao bairro.

Essas bandas expandiram sua atuação, gravaram discos e colocaram o trabalho nas redes, associando o nome do bairro à ideia de boa música.

Morador da região, o maestro José Ribeiro, o Zezinho, foi inúmeras vezes chamado para abrilhantar casamentos, festas, formaturas e eventos corporativos no hotel com sua banda Stagium 10.

Com o tempo, foi mesclando o repertório para atender tanto aos jovens com seu gosto por ritmos mais apressados quanto aos casais maduros que gostam de Bossa Nova, da MPB e das canções de sucesso da música internacional.

“Nos adequamos ao perfil de cada público, naturalmente sem abandonar os clássicos, seja num congresso, seja num jantar dançante”, diz o maestro.

Habituado a tocar nas principais cidades do Sul do país, a Stagium 10 tem três formações de orquestra, para agradar a plateias de diferentes perfis. Desde 1974, quando surgiu, é assim. Foi esse ecletismo do repertório que fez sucesso nos eventos do Maria do Mar, frequentado por um público de distintas expectativas do ponto de vista musical.

“Contamos com alguns músicos jovens, que conhecem as preferências das novas gerações”, afirma Zezinho. Ele faz questão de destacar a gentileza dos proprietários Rubinho e Ivone, que também são admiradores do trabalho da banda.

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