Uma viagem para o passado, quando as praias do Continente eram a coqueluche de Florianópolis

Nas décadas de 1960 e 1970, moradores e visitantes aproveitavam a estrutura dos bares e clubes perto das praias, em Coqueiros, onde os jovens dançavam e se divertiam quando o sol se punha

Foto de Paulo Clóvis Schmitz

Paulo Clóvis Schmitz Florianópolis

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Bem antes que a área central de Florianópolis fosse ligada por asfalto aos balneários do Norte da Ilha de Santa Catarina, era para as praias do Continente que os ilhéus costumavam se deslocar nos dias quentes de verão.

Bastava atravessar a ponte Hercílio Luz para chegar ao bairro de Coqueiros, onde as praias da Saudade, do Meio, das Palmeiras e de Itaguaçu escondiam recantos e um mar ainda limpo para usufruto dos mais ansiosos por um banho refrescante. Em décadas mais pretéritas, a praia do Balneário, pelos lados do Estreito, menos poluída que hoje, é que fazia a alegria dos banhistas de diferentes pontos da cidade.

Movimento na praia da Saudade, uma das praias de destaque em Coqueiros, entre as décadas de 1960 e 1970Praia da Saudade, em Coqueiros, entre as décadas de 1960 e 1970 – Foto: Arquivo/ND

Nas décadas de 1960/70, os moradores e visitantes também aproveitavam a estrutura dos bares e clubes de praia existentes na região de Coqueiros, onde os jovens dançavam e se divertiam quando o sol se punha. Quem vinha carro, ônibus e mesmo a pé, atravessando a ponte Hercílio Luz, garantia um permanente burburinho na orla, que tinha recortes de uma beleza natural única, que mais tarde ajudaram a transformar o bairro num dos mais elegantes de Florianópolis.

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Ainda em 1954, o Clube Doze de Agosto instalou uma sede balneária na praia da Saudade, onde está até hoje, oferecendo opções de lazer e prática de esportes. Até ali, era o Coqueiros Clube, depois vendido ao Doze, que exercia esse papel. O radialista Walter Souza (1940-2020) contou certa vez que chegou a entrevistar moças e senhoras da elite florianopolitana dentro da água, com seu microfone, tamanho eram o prestígio e a afluência de pessoas para os balneários do Continente.

A fama da praia da Saudade, hoje mais conhecida como praia do Meio, como point da classe média começou na década de 1940 e durou até quando surgiram os acessos pavimentados aos balneários do Norte da Ilha, em especial Canasvieiras e Jurerê, mais amplos, inóspitos e de águas mais limpas.

A poluição da baía Sul também ajudou a espantar os banhistas, e hoje a beleza é para os olhos, não para o olfato e a pele. A balneabilidade começou a ser um problema já na virada dos anos de 1960 para a década seguinte. Morando a menos de 30 metros da praia, muitos nem cogitam entrar nas águas de Coqueiros e adjacências. Há projetos da prefeitura para melhorar a balneabilidade, mas é preciso que as casas e edifícios se conectem à rede de esgoto, ajudando a limpar as águas da baía. Também é urgente acabar com ligações irregulares na drenagem pluvial e eliminar ligações inadequadas na rede.

Da pesca ao bairro elegante de hoje em dia

Como os balneários de Barreiros e de São Miguel, este em Biguaçu, as praias de Coqueiros eram a grande opção dos banhistas num tempo em que os caminhos para o Norte e Sul da Ilha eram de lama ou barro, dependendo dos humores do clima. A Lagoa da Conceição e a Joaquina também pediam paciência e espírito de aventura, pois eram acessadas por trilhas, praticamente. Um pouco mais adiante, quase desertas, a Brava e a Barra da Lagoa entravam no roteiro de uma seleta minoria.

Registro histórico da praia da Saudade, uma das praias de destaque em Coqueiros, entre as décadas de 1960 e 1970Registro histórico da praia da Saudade, em Coqueiros, do passado – Foto: Arquivo/ND

Nesse cenário, Coqueiros e adjacências eram o paraíso a 15 minutos do Centro. Com o tempo, famílias tradicionais da cidade, como os Daux e os Moritz, construíram casas lá para passar os fins de semana e os meses de veraneio. Um trampolim era usado para tornar os mergulhos mais emocionantes.

O professor e historiador João Batista Soares, um experiente pesquisador da memória de Florianópolis, guardou imagens que mostram os morros de Coqueiros, hoje cobertos por casas e edifícios, ainda e intocados, tomados por uma rala vegetação nativa.

Antes disso, ainda, as praias da região inspiraram a verve literária do escritor Othon Gama d’Eça (1892-1965), em especial no livro “Homens e algas”. São contos em que o autor retrata, em cenas pungentes, a miséria dos pescadores locais, premidos pela necessidade de sobrevivência material e ameaçados pelos riscos do mar, sempre traiçoeiro, sobretudo num tempo de barcos movidos a remo e a vela.

Nesse cenário, diante da carência e das doenças que o mar também potencializa, as belezas do lugar eram coadjuvantes. Quando chegaram as famílias de posse e compraram terrenos para erguer casas de veraneio, os nativos foram expulsos e o bairro ganhou ares de sofisticação, a ponto de se tornar, mais recentemente, uma via gastronômica relevante na cidade.

Até o começo dos anos 60 ainda havia falta de energia, ruas de chão batido e poucas linhas de ônibus. O bairro só tinha uma pequena venda e as agências bancárias estavam todas no outro lado da ponte. Nada a ver com o que se transformou a região – sem praias balneáveis, mas com reputação de área nobre e valorizada, próxima ao centro e com estrutura de uma cidade independente.

Praias por perto: balneário foi pioneiro e atraiu famílias abastadas

Bancário aposentado e jornalista, 66 anos, o manezinho Édio Fernandes nasceu e se criou no Balneário, bairro do subdistrito do Estreito que fica na orla continental de Florianópolis. “Jajá”, como é conhecido, diz que o local abrigou a primeira praia da “terra firme” associada ao lazer, especialmente após a inauguração da ponte Hercílio Luz, em 1926. Ele se baseia no livro “Estreito – Vida e memória” (1991), do escritor e bibliófilo Iaponan Soares, que pesquisou a história do bairro e era morador do Balneário.

Na década de 1910 – bem antes, portanto, da região de Coqueiros – o Balneário já atraía famílias abastadas de Florianópolis como um ponto privilegiado de lazer. “Quando tinha cerca de cinco anos de idade, eu tomava muito banho ali”, diz Édio Fernandes, advertindo que “o fundo sempre teve lodo, mas a água era limpa”. O vento nordeste revolvia e deixava a água turva e “as pessoas usavam boias de pneus para se banhar mais longe da margem”. Mais poluída, a parte que fica próximo à ponte nunca foi frequentada.

“O Balneário era um recanto tranquilo, com um trapiche em frente à pedra das Três Irmãs”, conta Fernandes, que mensalmente edita o “Jornal do Estreito”, um porta-voz dos anseios e veículo que denuncia as mazelas do bairro. Toda a região era um grande dormitório que abrigava famílias e seus pequenos negócios, pensões e hotéis usados por viajantes que chegavam à cidade e nem sempre conseguiam atravessar em barcos, canoas e bateiras por causa dos ventos fortes que cortavam as baías, antes da construção da ponte Hercílio Luz.

Plano diretor e a avenida Beira-mar mudaram a cara do bairro

As mudanças vieram com o plano diretor pioneiro da década de 1950, o prestígio adquirido pelas praias de Coqueiros e a transformação de um bairro essencialmente residencial num local atrativo do ponto de vista imobiliário. Melhorias no saneamento, abastecimento de água e energia fizeram com que o Estreito e os bairros da redondeza ganhassem ares de mais cosmopolitas, com muitas lojas, oficinas mecânicas e negócios no segmento de prestação de serviços.

O Balneário, particularmente, era o lugar preferido pelas pessoas idosas, por causa de sua tranquilidade e segurança, até que a construção da avenida Beira-Mar Continental valorizou imensamente os imóveis e mudou as antigas características do bairro. Até os clubes sociais (como o Seis de Janeiro, por exemplo) sucumbiram à exploração imobiliária. Na parte que pertence a Florianópolis, a praia do Balneário vai da Ponta do Leal até a divisa com São José.

Com a expansão das últimas décadas, o Balneário em pouco lembra as casinhas na beira da praia usadas pelas pessoas para trocar a roupa antes e após o banho de mar. Também a colônia de pesca perdeu o peso, assim como pertence ao passado o prestígio do bairro de abrigar as casas de veraneio como as do ex-governador Aderbal Ramos da Silva (1911-1985) e do ex-prefeito e ex-deputado estadual Fúlvio Aducci (1884-1955). “A elite foi para Coqueiros, que virou uma coqueluche nas décadas de 60 e 70, até ser desbancada pelas praias do Norte da Ilha”, afirma Jajá.

O Estreito e os bairros que compõe o subdistrito pertenciam ao município de São José até 1943, com o nome de distrito de João Pessoa, e foram anexados à Capital durante a gestão do interventor Nereu Ramos durante o Estado Novo.

À beira-mar (*)

“Sentados sobre as pedras, ao ruído das ondas espraiando-se em carícias murmurosas, batidas pela brisa do mar gemendo queixosamente por entre os ramos das árvores, que acenam docemente para as embarcações navegando ao longe – os três mantinham uma palração animada, olhando as casas da Praia de fora, muito brancas, no recôncavo da costa, sob a claridade esmaiada da tarde; as colinas do estreito, ondulando em planos sucessivos de esmeralda; a paisagem dos Coqueiros, fresca, saudosa e verde-negra, destacando sobre ouro, como linhas fugidias de um oásis. Perto, numa volta da estrada, para onde descem pastagens luxuriantes, lembrando os prados bizarros da Escócia na primavera, grupos coloridos de moças e rapazes perpassavam alegremente, na frescura litoral da paisagem…

(*) Conto do livro “Mares e campos”, de Virgílio Várzea (1863-1941)