Os comerciantes e ambulantes que dependem do movimento nas praias de Florianópolis não estão totalmente satisfeitos. É um consenso entre eles que o faturamento aumentou significativamente em relação à temporada anterior, porém, depois do Natal e Réveillon, houve queda.
O tempo ajudou e a praia de Canasvieiras lotou na segunda-feira (17) – Foto: Leo Munhoz/NDBares, restaurantes e supermercados se destacam, enquanto o comércio de roupas sofre um pouco. Para os turistas, os preços estão nas alturas e muitos levam alimentos e bebidas de casa para a praia.
Chefe da equipe de garçons de um restaurante na beira da praia de Canasvieiras, Norte da Ilha, Edenir Vargas, 35 anos, disse que o movimento não está fraco, mas a expectativa era maior.
“O movimento maior é nos finais de semana, que daí vem o pessoal aqui da região também”, disse Edenir – Foto: Leo Munhoz/ND“Depois de 6 de janeiro deu uma boa caída. Está sendo uma boa temporada, mas esperávamos mais. Os argentinos vieram, mas não como nos outros anos. Atendemos mais brasileiros e eles estão gastando, mas nada exorbitante”, explicou.
José Rodrigues, 48 anos, pilota a embarcação que puxa a banana boat, passeio tradicional em Canasvieiras, que custa R$ 60 por pessoa e dura cerca de 40 minutos.
“Num dia bom, realizamos uns 18 passeios. Hoje, estamos no quinto passeio agora, às 15h30”, contou José – Foto: Leo Munhoz/NDSegundo o piloto, poucos turistas reclamam do preço e está raro ver argentinos em Florianópolis. Na segunda-feira (17), a praia estava cheia, mas não saíram tantos passeios.
Thais Cristina Santos, 41 anos, é paraense e vendedora numa loja de artesanatos na avenida das Nações, perto da praia de Canasvieiras. Ela começou a trabalhar neste verão e também viu queda no movimento após as festas.
Segundo Thais, os argentinos levam muitas lembrancinhas para familiares – Foto: Leo Munhoz/ND“Nessa segunda semana de janeiro deu uma caída, mas, nesta semana, está aumentando de novo. O sol deu uma ajudada”, relatou a comerciante. Segundo Thais, a vinda de argentinos também está abaixo das expectativas, mas eles compram mais e pagam no dinheiro, enquanto que os brasileiros gastam menos e pagam no cartão.
Vendedora numa loja de roupas na mesma avenida, Viviane Alves dos Santos, 23 anos, está há três meses no comércio. Ela teve a mesma percepção em relação ao volume de turistas neste verão.
Segundo Viviane, os argentinos estão pesquisando bastante os preços – Foto: Leo Munhoz/ND“Foi maior no Natal e na virada do ano. Nos começos de mês, também. Depois, fica mais fraco”, enfatizou. Os proprietários da loja, segundo ela, dizem que o movimento está pior em relação a temporadas passadas.
Preços nas alturas e turistas com os pés no chão
Fabricio Salatiel da Silva, 34 anos, é esteticista num petshop. Turista de Venâncio Aires (RS), está desde domingo (16) em Florianópolis. Ele veio com a esposa, a empresária Daniela Rubner, 33 anos, e a filha Ana Carolina, 4 anos.
“O preço tá o gosto da água do mar”, disse Daniela rindo – Foto: Leo Munhoz/NDSegundo Fabricio, o preço mais absurdo foi de uma porção de peixe a R$ 180.“Paguei R$ 35 numa caipirinha e achei caro. O jeito é trazer coisa de casa”, disse o turista, que tinha acabado de consumir uma porção com batata frita e frango a passarinho a R$ 66. “Achei caro”, comentou.
Já Daniela se espantou com o valor das roupas. “Em torno de R$ 150 uma peça. Não comprei. Os vendedores dizem que está mais barato do que nas lojas, mas vi que não é”, disse.
Passeio custa R$ 60 por pessoa e é diversão garantida – Foto: Leo Munhoz/NDDe Curitiba (PR), o assistente administrativo Aécio Cabral dos Santos, 36 anos, e a esposa Amanda Antunes de Almeida, 26, vendedora, chegaram à Capital no sábado (15).
Os dois foram apenas na Joaquina, Leste da Ilha, e em Canasvieiras. Bebendo água de coco, o turista contou que pagava R$ 5 na fruta nos verões passados e que o valor dobrou.
O valor que a gente pagava no camarão está sendo cobrado no peixinho”, disse Aécio. – Foto: Leo Munhoz/NDO casal, que não gosta de trazer comida de casa, gasta apenas o necessário. “A gente acaba segurando a fome ou come na pousada”, disse Fabricio.
Na Joaquina, segundo Amanda, dois drinques e uma água de coco custaram R$ 90. “A gente se assustou quando veio a conta, porque não tinha visto o preço”, comentou a turista.
Os nativos da Ilha também estão econômicos. José Pas, 67 anos, é funcionário público e estava na praia com a esposa, Neusa Cristina Silva, 51 anos, auxiliar de escritório.
Moradores da Ilha também estão poupando – Foto: Leo Munhoz/ND“A gente traz de casa e compra uma coisinha ou outra aqui. Na praia, geralmente, é tudo muito caro. A gente traz fruta, água, refrigerante, uma cervejinha e sanduíche”, afirmou Pas.
“Será que eu dou-lhe?” – Foto: Leo Munhoz/NDNa praia, o casal comprou apenas um choripã, a R$ 15. “O milho cozido, que você compra a R$ 1 no mercado, estão vendendo a R$ 10 aqui. É um absurdo. Um lucro de 1000%, fora do normal”, reclamou Pas.
“As famílias estão gastando menos”, diz coordenador da ACIF
Carlos Cruz é diretor da Regional Canasvieiras da ACIF (Associação Empresarial de Florianópolis). Ele concorda que o movimento deste verão realmente não propicia alta lucratividade, mas não é a decepção da temporada passada.
Cruz defende que o comércio local crie alternativas para além da praia e mais opções para os turistas – Foto: Leo Munhoz/ND“É muito claro que a pandemia ainda tem impacto, tanto nas restrições e preocupações, quanto no aspecto econômico. A temporada aponta que estamos melhores do que 2021, cerca de 40% a 50% acima, mas aquele ano não serve de referência”, disse o empresário.
Em relação a 2020, quando a pandemia chegou ao país em março e a temporada foi praticamente cheia, os números deste ano estão em torno de 25% abaixo.
Mas, além de vir, o turista precisa gastar. Segundo Cruz, o ticket médio também está um pouco abaixo. “As pessoas estão gastando menos, controlando, achando alternativas e, com isso, o ticket está menor, 5% a 10% em média do que 2020”, informou Cruz.
O que muitos estão fazendo é isso: trazendo o ‘isoporsão’ abastecido – Foto: Leo Munhoz/NDSegundo Cruz, a situação é melhor para bares, restaurantes e supermercados. “O comércio de vestuário está faturando, mas não é o que mais está ganhando. O pessoal das estadias e hospedagens também não está com 100% de ocupação, que seria natural dessa época, e estão com cerca de 75%”, disse.
Voos de todos os lugares do Brasil
Superintendente de turismo da Prefeitura de Florianópolis, Vinícius de Luca afirmou que a queda no movimento após Natal e Réveillon não é novidade. É algo histórico.
Ele relatou um incremento de turistas que chegam de avião. Segundo de Luca, a maior malha aérea da história da cidade – e seu novos voos diretos – está muito bem, com taxa de ocupação próxima dos 90%.
“Cuiabá, Goiânia, Recife, Salvador, Curitiba, Santa Maria, Foz do Iguaçu, todos estão com performances ótimas. Estamos conseguindo aumentar a quantidade de pessoas que vêm de avião e eles, em média, gastam mais do que quem chega de carro”, frisou.
Coordenador do Fortur (Fórum de Turismo da Grande Florianópolis), Fábio Queiroz acredita que a região do Norte da Ilha sente a ausência dos argentinos. “De forma geral, todas as regiões, a partir da virada, acabam sentindo bastante, mas o Norte da Ilha sente mais essa falta”.
Vou ‘dá-lhe’ e ainda vai ser de mortal – Foto: Leo Munhoz/NDQueiroz acredita que alguns turistas ainda vão chegar. “Os argentinos eu penso que não. Se chegar, é muito pouco. A Ômicron afastou o pessoal que deixou para viajar agora, mas também pelas medidas de última hora do governo argentino, e a exigência de dois testes da Covid-19, um durante o período fora da Argentina e outro 48 horas antes de voltar”, enfatizou Queiroz.
Sobre os preços dos produtos no comércio, ele disse que houve aumento no valor dos insumos, forçando os comerciantes a repassar o valor na hora de vender. “Com certeza muitos restaurantes e bares trabalharam com margem mais reduzida neste início de temporada. Tudo aumentou muito”, destacou Queiroz.