Turismo necessita de estratégia para vencer desafios históricos

19/08/2021 às 16h00

Com demanda reprimida por conta do período de isolamento, segmento turístico espera volta forte das atividades, mas Santa Catarina ainda tem o desafio de diversificar e fortalecer as opções locais

Paulo Rolemberg Florianópolis

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Apesar das mudanças estruturais no turismo catarinense causadas pela pandemia, o setor já passava por transformações. Segundo o professor doutor em turismo do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), Tiago Savi Mondo, o setor catarinense, a partir da década de 1980, passou a viver de um “turismo de temporada”.

Um turismo massificado, um modelo de turismo onde se recebia muito turista em dezembro até fevereiro, e era visto pelos empresários como suficiente para sustentação do mercado.

Conhecida pelo litoral, Santa Catarina tem muito mais a oferecer aos turistas e precisa criar e divulgar melhor outros atrativos do Estado – Foto: Anderson Coelho/NDConhecida pelo litoral, Santa Catarina tem muito mais a oferecer aos turistas e precisa criar e divulgar melhor outros atrativos do Estado – Foto: Anderson Coelho/ND

Segundo Tiago Mondo, até 2010, o perfil do turista que visitava Santa Catarina era de famílias, se deslocando de carro (até hoje 70% continua), com alojamento na maioria das vezes em casas de aluguel, e cerca de 30% em hotéis. A alimentação, normalmente, eram adquiridas em mercados.

“Foram 30 anos de estagnação, mas uma estagnação, na temporada, economicamente boa, em um  modelo clássico, onde eu chamo de ‘turismo fraco’. Uma atividade turística que não gera riqueza para o destino”, analisou o professor.

“Do ponto de vista turístico, poucos produtos turísticos são consumidos na temporada no Litoral catarinense. Esse modelo se perpetuou e perdura até hoje, mas em menor grau. Modelo arcaico e não feito em praticamente lugar nenhum”, salientou.

O problema é que os outros destinos concorrentes começaram a realizar uma estrutura política melhor do que a desenvolvida em SC.

E perceberam que ao ofertar outros produtos conseguiriam um turismo menos sazonal. A Bahia, segundo o professor do IFSC, é um exemplo, de que “levou” turistas argentinos que visitavam Santa Catarina.

“Os empresários se uniram e passaram a subsidiar, durante meses, o querosene de aviação para companhias aéreas. Baixou o preço da passagem de Buenos Aires para Salvador, os argentinos com dinheiro vão para Bahia e não vem mais para Santa Catarina”, disse Tiago.

É preciso promover novidades para fugir do perfil de demanda

A recuperação do turismo em Santa Catarina surgiu na metade desta década. O Estado começou a entender que precisava ofertar outros produtos para fugir do perfil de demanda que acompanha nos últimos 30 anos.

As crises econômicas na Argentina e no Brasil fez com que as temporadas ficassem cada vez mais sem demanda e abriu os olhos dos empresários que tinham a necessidade de mudar.

Segundo o professor, a cidade de Blumenau foi uma das primeiras a perceber a mudança, quando alterou o perfil da Oktoberfest.

Transformando a festa de um público jovem – majoritariamente jovem – para mais familiar.

Comunicação das cidades necessita de mais atenção

O segredo para os próximos anos, de acordo com Tiago Mondo, é atingir as regiões críticas do Estado e diversificar as ofertas, ou seja, criar produtos. Mas, para isso, o turismo catarinense deve aprender a ter a internet a seu favor. Tanto que a maioria dos destinos em Santa Catarina não tem um site turístico. “Estamos atrasados na comunicação via internet na promoção do turismo”, diz o professor. 

Com o bom uso da internet é possível captar dados de quem procura, de quem compra e, a partir dessas informações, traçar novas estratégias. A maior parte das secretarias municipais e dos trades turísticos não têm dados para gerenciar. Apenas Balneário Camboriú e Bombinhas realizam levantamento de dados feitos periodicamente. “Fica difícil de gerenciar, se gerencia no escuro”, lembrou o professor.

Tiago Mondo ressalta quatro pontos para o desenvolvimento turístico do Estado: diversificação de produtos, ou seja, conseguir mais turista se tiver mais produtos, como: atrativos construídos, concessão de atrativos naturais para iniciativa privada; pesquisa e gestão de dados, desenvolvendo a atividade turística no Estado; promoção: o marketing de destinos precisa ser mais utilizado; e presença digital. “Santa Catarina peca muito na presença digital”, disse.

“A cidade de Praia Grande será a menina dos olhos do turismo catarinense nos próximos anos”, disse o professor Tiago Mondo. Isso deve ocorrer após a concessão dos Parques Nacionais Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul, e Serra Geral, em Santa Catarina, à iniciativa privada. Os locais de uso público que foram cedidos à iniciativa privada foram os Canyons Itaimbezinho, a trilha do Rio do Boi, o Canyon Fortaleza, a trilha do Tigre Preto, e o interior do Canyon Malacara.

Em 2019, antes da pandemia, o local recebeu 250 mil visitantes. A expectativa é que, a partir da concessão, sejam recebidos mais de 1,5 milhão de visitantes ao ano.

União entre setores público e privado para fortalecer o trade

O coordenador geral do Fórum de Turismo de Florianópolis, Humberto Freccia Netto, vê com otimismo o setor nos próximos anos. Segundo ele, há uma demanda reprimida devido à pandemia e as pessoas começarão a viajar sem medo. Ele diz acreditar em um crescimento exponencial do turismo no Estado, principalmente na Capital, em especial o calendário de eventos reprimido nos últimos dois anos. “Os trades estão negociando eventos para os próximos três anos”, contou.

Freccia Neto prega a união entre empresários e o poder público para fortalecer o setor turístico no Estado. “Estamos vendo as entidades representativas se unindo. Antes só olhavam para o próprio umbigo. Agora é caminhar de mãos dadas e agregar os esforços em um caminho único”, frisou.

Conscientização dos empresários

Guilherme Paulus, apontado como um dos maiores empresários do turismo brasileiro, fundador da maior operadora e agência de viagens, a CVC, diz acreditar que o mercado turístico catarinense tem potencial, porém a conscientização do empresariado deve melhorar.

“Ele explora o turista, não no sentido de tomar o dinheiro dele, quando ele vem para o verão, ganha um monte de dinheiro e acha que não precisa trabalhar mais, se acomoda, não tem uma continuidade”, avaliou. 

Paulus comparou com o que ocorreu na cidade de Gramado, onde o comércio cria alternativas para o ano todo. Eventos como o Festival da Vindima, no verão, com a colheita da uva, tem a festa da Páscoa, a Semana do Colono e o Natal Luz. Ou seja, cria-se alternativas para que se tenha turistas o ano inteiro.

“Em Santa Catarina o que falta é os empresários investirem, mostrarem sua cara. Ou eles mostram sua cara ou ninguém sabe o que tem aí. Não vai ninguém, não vai ninguém e não paga a conta. Acreditar no potencial turístico do Estado e criar programações para que as pessoas viagem o ano todo a Santa Catarina”, disse Paulus.

Infraestrutura é ponto chave

Apesar de mostrar otimismo, Paulus não poupa críticas ao que ele diz como “falta de infraestrutura”. Para o empresário, há uma necessidade imediata de novas companhias aéreas no país. Atualmente são quatro, com a recém-chegada ITA. 

“Nós temos poucas companhias aéreas. Temos que ter mais hotéis, ter mais companhias aéreas. Um país com 240 milhões de habitantes… Temos agora quatro companhias. É pouco para o nosso país”, disse. Ele ainda sugere o desenvolvimento do turismo regional, com investimentos nos aeroportos regionais.

Para Paulus a exploração turística da costa brasileira com os cruzeiros deve ser não apenas na temporada de verão, mas durante o ano inteiro. “Deveríamos ter navios não apenas na temporada de verão. Um, dois ou três navios fazendo Norte, Nordeste e o Sul. Ter turismo marítimo o ano todo”, ponderou.

O fundador da CVC salientou que os empresários do setor turístico brasileiros ainda não se conscientizaram que, para promover o país no exterior, tem que partir deles e não ficar apenas aguardando ações governamentais. “A responsabilidade de trazer turista internacional para o país é responsabilidade do setor hoteleiro, dos operadores turísticos. Bater na porta deles, tem que falar que existe”, comentou.

Janela de oportunidades para promover melhorias

Para Morgan Doyle, representante do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) no Brasil, esse momento pós-pandemia também pode ser uma janela de oportunidade para se repensar modelos de desenvolvimento, revisitar ideias e efetivamente construir um setor de turismo mais sustentável, resiliente, inclusivo, diverso e responsável.

Ele endossa que os caminhos para o futuro do turismo no Brasil passam por valorização dos recursos naturais, por prover infraestruturas adequadas, por dar bases para que a população entenda o papel do setor e seja efetivo partícipe, por ter uma compreensão da complexidade do setor pautada em dados e por uma atuação conjunta e bem articulada entre os setores público, privado e sociedade civil.

“Enxergamos no turismo uma fonte enorme de geração de emprego e redução da desigualdade. O Brasil deve ser uma superpotência do turismo da natureza. Pode fortalecer a valorização do patrimônio cultural e natural do Brasil”, afirmou.